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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Projetor

Baseado em fatos reais.

Aquela era uma noite especial. Depois de um mês bem comportado, aquele seria o momento da forra. Ele a conheceu na academia. Sempre que tinha oportunidade conversava com ela. Um dia criou coragem e a convidou para sair. Ela aceitou. Saíram para jantar, foram ao cinema e a balada da moda. Ficaram. Nada além de beijos. Dessa noite ela não passava. A janta seria em sua casa. Preparou cada detalhe. Iria estreiar o projetor que comprou em Rivera. Último modelo. O plano já estava traçado. Jantar e depois ver um filme no potente projetor. Cinema em casa. Na falta de uma tela ele improvisou com a cortina. Fechou-a e testou a imagem. Perfeita. A cortina branca fechada resolveria a questão.
O porteiro toca. É ela. Sorridente ele a recebe com um beijo. Juntos comem o sushi que ele pediu. Uma garrafa de vinho para acompanhar. Nervoso ele observa o projetor, ali estava a sua salvação. Mais uma garrafa de vinho.
- Vamos ver um filme? - Ele pergunta
- Claro.
Ele prepara o cenário. Fecha as cortinas. Liga o DVD e o projetor.
- Já assistou "Crepúsculo"? Tirei para a gente ver.
- Não vi ainda. Estou louca para ver.
Tudo funcionando. O aparelho lança a imagem na cortina. Mal o filme começa eles se beijam. O clima esquenta. As carícias ficam mais ousadas. O plano estava dando certo.
- Não tem um filme mais animado? - Diz ela maliciosamente no seu ouvido.
O frio toma conta de sua barriga. Filmes animados? Sim, vários. Brasileiros, americanos, italianos e até japoneses. Ele nem pensou nisso. E no novo projetor? Meu Deus, que maravilha. Ele pega o primeiro filme animado que encontra. Coloca no DVD. A imagem surge na cortina. Ele pula para o sofá. O plano deu certo.















Naquela noite o vigia da rua se divertiu muito.

sábado, 3 de outubro de 2009

Myrians e Robertos

Conheço um cara que diz que a melhor fase do Roberto Carlos foi quando ele sofria pela Myriam Rios. Que essa história de Jovem Guarda, mulher de 40, gordinhas e caminhoneiro não estão com nada. As letras mais bonitas foram nessa época. Eu não sou um especialista na obra do Rei, na verdade nem dou muita bola para ele. Por isso não estou apto em concordar ou discordar.
Só que pensando no que esse amigo disse dá para chegar em uma conclusão. É óbvio e sei que não sou o primeiro a ver isso. A fossa é fator importante nas grandes produções culturais. A grande parte dos bestsellers, blockbusters e hits (três palavras em inglês, mas o texto é em português) tem essa temática. O amor não correspondido, a traição, o amor impossível, o pé-na-bunda, tudo leva a um caminho: a fossa.
Eu me lembro, da época de criança, que o RC (já estou íntimo do rei chamando-o de RC) foi casado com a Myriam Rios. Nem sabia que o cara tinha entrado na fossa por ela. Ainda vou confirmar com algumas pessoas se isso foi verdade.
Eu estava lendo alguns posts antigos que eu escrevi e por isso resolvi falar sobre esse assunto. Engraçado que quando eu estava na fossa eu tinha mais "necessidade" de escrever e desenhar. Hoje tenho algumas idéias de textos e desenhos, só que não paro para fazer isso. Antes eu tinha uma necessidade maior de externar certas coisas. Parece que é mais fácil criar quando estamos no fundo do poço (nossa! que dramático!) do que quando estamos em uma boa. A fossa passou, ainda bem. Até dá um pouco de vergonha, mais pelo tempo que eu perdi do que pelo o que escrevi. Dei atenção demais para quem não merecia. Preciso aprender a colocar para fora a alegria.

Mas o que seria dos Robertos sem as Myrians?

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Pensou

Ele tomou uma decisão que virou sua vida ao avesso. Fazia um tempo que pediu separação da mulher. Fazia um tempo ele arranjou uma nova mulher. Só que existiam dois detalhes. O primeiro é que ele continuava morando com a ex-mulher. O segundo, a namorada atual era casada. Confusão garantida.
Voltando para casa depois de um dia terrível de trabalho ele já pensava no que o esperava. Desmarcou o encontro com a namorada, ela tinha desejos estranhos na cama e ele não estava com saco para isso. Sabia que ao chegar no apartamento teria que encarar a ex e suas mágoas.
Abriu a porta e foi direto para a cozinha. Acendeu um cigarro. Ouviu passos. "Merda", pensou. Surge na porta a figura da mulher abandonada. Rosto inchado, cabelos não penteados a dias. Nos olhos, ódio. Ela enche o peito de ar e ele percebe que lá vem o discurso. "Merda", pensou. Ela despeja 468 palavras por minuto. Ele escuta um pouco e desliga os ouvidos (tática que aprendeu nos anos de casado). Só vê aquela mulher tendo um ataque de nervos, mas nada escuta. O celular vibra, uma mensagem da amante. Ele lê. As palavras cachorro e verme saltam aos seus olhos. "Merda", pensou. Ele levanta a cabeça, a ex continua seu show. Chorava, babava e apontava o dedo para ele. Ele apenas observou. O celular vibra, nova mensagem. Idiota e insensível são os novos adjetivos que recebeu. Ao olhar para porta vê suas roupas voando pelo corredor. "Merda", pensou. Acendeu outro cigarro. A mulher surge descontrolada. Agitada, pisando nas roupas e gesticulando sem parar. Ele já não entendia mais nada. Outra mensagem no celular. "Merda", pensou. Resolveu nem ler. No peito, uma forte dor surge. "Merda", pensou pela última vez.

sábado, 18 de julho de 2009

Torpedo

- Pô cara! Já tá mandando torpedo? A gente tá aqui tomando uma ceva e tu já te grudou no teu celular. Aposto que é uma daquelas mulheres roubadas que tu te mete.
- Não, não.
- Não? Dúvido. É a delegada casada?
- Não.
- É aquela emo?
- Não cara!
- Então só pode ser aquela tua colega de trabalho.
- Não, essa é nova.
- Xi, lá vem encrenca.
- Não, essa é diferente. Já tô a um tempo ficando com ela. Tá ficando séria a situação.
- Meu, tu é muito bobalhão. Tu tem que aproveitar mais a vida. Vamos para a putaria.
- Bah velho...
- Tu sai de uma e já te engata em outra. E sempre te dá mal. Tu não pode ser tão bonzinho com elas.
- Não é assim. Eu só trato bem. Mulher gosta de ser bajulada.
- Tá bom, vai acreditando. Mulher gosta de homem cafajeste, isso sim. Tem que bajular para conseguir o que tu quer.
- Então cara, eu bajulo para ficar com elas.
- É, mas tu dá muita segurança para elas. Não pode ser assim. Tem que ser como eu.
- Como tu? Tu não curte compromisso.
- Hahahaha! Mas aposto que sou mais feliz que tu. Vou lá, faço meu serviço e retorno para minha liberdade. Elas nunca sabem se tão comigo ou não. Daí elas correm atrás e eu não preciso fazer esforço.
- Peraí que ela respondeu.
- O que ela respondeu?
- Ah! Tu acha que eu vou te falar.
- Respondeu por educação. Não deve ter saco para isso. Vamos pedir a saideira?
- Pede, pede. Como assim não deve ter saco? Ela tá tri afim de mim.
- Acho brabo. Quer fazer um teste? Ô garçom, mais uma!
- Teste?
- É, pede ela em namoro.
- Por torpedo?
- É.
- Bah, isso não é nada romântico.
- Putz, que mulherzinha! Vai lá meu! Manda essa mensagem e vamos ver o que vai dar. Tenho certeza que tu vai te dar mal.
- Beleza, então vamos ver. (...) Pronto, mandei.
- A gurizada sempre fala. Tu te mete com essas malucas e não aparece mais na sinuca, não vai mais nos jogos. Depois volta todo chorão.
- Não é assim, foi coincidência.
- Vou te levar para a Farrapos comigo. Vou te apresentar uma gata que eu conheci lá.
- Sei, tu acha que eu tenho grana para isso?
- Eu já tô comendo ela faz um tempo. Eu peço um desconto, qualquer coisa eu te pago.
- Pára com isso! Puta só quer teu dinheiro. Te enche de elogio, mas quer mesmo a tua grana.
- Mas pelo menos não enche o saco. Sexo pago é mais barato que sexo de graça! Pô, já esqueceu o calote que tu levou?
- Aquela não prestava.
- E as outras?
- Só não dei sorte.
- Então cara, vamos aproveitar! Sair e pegar todas. Deixa de ser bundão!
- Não, não é assim. Olha o frio que fez semana passada. Nada melhor que ter uma mulher para te aquecer.
- Eu tenho meu cachorros para isso. Hahahahaahaha!
- Não dá para conversar contigo.
- É, não dá mesmo! Falando nisso, tenho que ir. Daqui a pouco passa o último 77 e se eu perder vou ter que voltar a pé.
- Beleza, deixa que eu acerto. Tô te devendo essa grana.
- Vai no jogo amanhã?
- Vou ligar para os guris e ver se tem uma carteirinha sobrando.
- E a nova amada respondeu teu torpedo?
- Ainda não, mas pode deixar que assim que ela responder tu vai ser o primeiro a saber.
- Se ela responder.
- Tá bom. Falou então.
- Falou. Só te cuida aí no caminho. Essa zona tá braba.
- Não dá nada, são só três quadras.
- Beleza.

(...)

Do meio da escuridão surge uma pessoa.
- Perdeu maluco, perdeu!
- Calma, calma!
- Passa o dinheiro!
- Cara, só tenho dois reais.
- É bem chinelão! Passa o celular!
- O celular?
- É, tá surdo playboy?
- O celular não!
- Eu tô armado otário! Quer levar um tiro? Rápido! Rápido!
- Foda, pega aí.
- Pi, pi. Pi, pi! (isso é um celular recebendo mensagem)
- Peraí, peraí! Chegou uma mensagem! Eu preciso saber o que tá escrito. Leva o celular, mas me diz o que tá na mensagem.
- Não.